sábado, 12 de julho de 2008

A lenda do.

Estava havia muito sem alugar filmes. Não sem ver nenhum, embora os que eu andava vendo não eram exatamente o que eu escolheria ver, se tivesse oportunidade. Mas o que mais me irritava era ver meus amigos no mesmo ritmo de antes, alugando toneladas e discutindo sobre elas –enquanto eu olhava distraidamente pra cara da Claudia Raia que depois de anos e anos de televisão ainda não aprendeu a ser uma boa atriz. Enfim, cansei. E a gota d’água veio exatamente no momento em que passei na rua de carro e vi uma dessas minhas amigas do ritmo cinematográfico alucinante com um saco gigante de filmes na mão. Enciumei-me e fui muito irritada à locadora. Aluguei tudo o que o dinheiro e o tempo permitiram, e voltei a ficar bastante feliz e posuda.

Chegando em casa, vi que todos tinham decidido fazer a mesma coisa que eu: enriquecer as locadoras municipais. Tanto melhor! Além dos filmes que eu escolhi, ainda ia poder ver os que minha mãe, meu pai e meu irmão alugaram, embora isso não tenha acontecido de fato.

À tarde de terça-feira (eu os aluguei no sábado e tinha que entrega-los na quarta), todos os meus filmes haviam-se esgotado. Restavam os da família. Dei uma olhadela; acabei optando por um da Disney, cujo anterior havia passado há poucos dias na Globo, e a história ainda estava fresca na minha cabeça: A Lenda do Tesouro Perdido.

O filme, provavelmente proveniente dessa onda códigodaviceniana a que estamos passando (e isso não é um crítica, nem positiva nem negativa), conta a história de um homem que descobriu que um de seus antepassados havia ajudado a abafar uma conspiração contra o presidente Lincoln, depois da Guerra de Secessão, queimando um diagrama codificado. Tal diagrama mostrava onde estaria localizada uma cidade ameríndia feita quase totalmente de ouro, e era procurada pelos conspiradores. Na verdade, a trama começa quando outro homem interpreta os fatos de outra maneira, fazendo com que de mocinho, o tal antepassado do protagonista, passasse a ser bandido e, no caso, conspirador, que inclusive havia ajudado a matar o então presidente, Lincoln. Essa acusação faz com que o protagonista comece a buscar pistas de onde estaria localizada a cidade do ouro e salvar a sua reputação familiar, que a essa altura já estava bastante abalada.

Misturando história e suspense, foi até legal assisti-lo numa tarde de terça-feira. E, sinceramente, foi também instigante. Mas o que, de verdade, chamou a minha atenção, foi uma frase dita por um fulano, quando eles decidiram invadir a sala do presidente com o intuito de investigar a mesa a qual ele sentava. “Mas lá é onde sentam os homens mais inteligentes do país!” Essa frase realmente mexeu comigo e me fez pensar na nossa realidade política, e talvez até invejar os EUA.

Que os Bush foram uns dois grandes merdas, vá lá, mas ninguém pode negar que eles foram ao menos inteligentes pra fazer suas porcarias. Eu nunca os ouvi dizendo que não sabiam de alguma coisa que grupos de pessoas roubavam absurdas quantias do dinheiro público só pra livrar a sua imagem. Eu nunca vi o povo americano, frente a uma roubalheira política, baixar a cabeça e dizer “sempre foi assim, por que hão de mudar agora?”, e continuar votando insistentemente no mesmo candidato.

Os anti-americanos que me perdoem, mas merdas mesmo somos nós.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Breve e saudoso desabafo.

É estranho reencontrar pessoas que fizeram parte insistentemente do nosso passado. Principalmente quando esse passado faz tempo, e delas só fofocas chegam a você. Aí vem aquele saudosismo, aquele sentimentalismo grudento de "lembra daquela vez...". E no final tem sempre aquela promessa de vidas futuramente entrelaçadas.

Algumas pessoas (eu, por exemplo) ficam com aquela promessa na cabeça, como se as coisas fossem voltar a ser do jeitinho que eram quando o passado era presente; e esperam, esperam... Cansando. Ou às vezes não, o que é ainda pior e intensifica mais esse sentimento de estar velho e decrépito, de não ter cumprido o que dizia que era impossível não cumprir, de estar diferente. E amar mais do que era necessário, reviver mais tempo que os outros, relembrar mais milcoisas minuciosamente, e desejá-las é o maior perigo. Frustração.

Deveria ser mais fácil se separar das pessoas, feito ordem divina que cai do Céu num pedaço de madeira fluorescente. Todos nós respeitaríamos sem contestar e não acabaríamos por nos magoar quando a validade das relações acaba e as pessoas, que antes se entendiam tão somente com o olhar, vão tocando as suas vidinhas sem se esbarrar.

Também não deveria doer. Quer dizer, embora eu ache que não seria nada legal uma amizade não fazer falta a uma pessoa, seria mais fácil na hora de se separarem. O problema é que todo o mundo quer achar que faz falta pra alguém, involuntariamente. E todo mundo quer que os outros façam falta pra si mesmo, só que na verdade fazem, e isso torna a sensação ainda mais agressiva e irrimediavelmente triste, durante um bom bocado de tempo. Frustração!

sábado, 31 de maio de 2008

Futebolística.

Não sei porque, mas detesto futebol. Na verdade até sei, embora tenha feito mil esforços pra pensar no contrário. Aluguei filme, assisti a jogos, tentei conversar; descobri que a única coisa que eu tolero é jogo do Brasil, e mesmo assim, sou a única que grita quando o time contra faz um gol (não é má vontade, tem vezes que eu simplesmente não consigo diferenciar).

No entanto, eu ainda carrego umas heranças, pequenas e preconceituosas, é verdade, do meu pai. Apesar de tentar, não consigo me livrar de achar que o Flamengo é legal, e Fluminense também. Vasco é horrível e Botafogo é o pior time que há. Anti-flamenguista é invejoso. Anti-vascaíno é sensato. São Vicente não é nada mal, Corinthians é péssimo; Bostafogo é, definitivamente, o pior time que há.

Mas eu tenho que admitir que a camisa do Flamengo não é bonita. Esse negócio de rubro-negro não fica bem, listrado. Grená, branco e verde é uma mistura ousada, e fica até bem bonito. Mas nenhuma se compara à do Botafogo; ô camisinha pra ta na moda!

Eu acho que é por isso que tem tanto torcedor botafoguense: listra em preto-e-branco é uma febre. Basta andar meia hora na rua que você vai entender o porquê; mulheres, senhoras e meninas, todas elas usando blusa, calça ou calcinha listradas, umas com listras mais grossas, outras menos. Mas é sempre listra meio fotografia velha, em p&b.

Acho que isso explica essa nova onda de garotas histéricas e fanáticas pelo Bostafogo; se é pra escolher um time, que seja um time fashion. Pena que essa moda esportiva com números estampados seja lá dos meus idos onze anos...

terça-feira, 20 de maio de 2008

Bem-maior

Malthus provavelmente se está revirando no túmulo, sorrindo; os olhos putrefeitos voltados pra China, de onde o caos, friamente calculado como bom pra humanidade, emerge de placas tectônicas profundas.

Os jornais vomitam informações, as quais não preciso informar aqui, acredito. É sabido que os terremotos andam gerando uma grande baixa na população mundial. Naturalmente, a sociedade, chocada, se preocupa com o fim dos que lá vivem (ou morrem), com razão, embora essa realidade esteja tão longe de nós aqui e essas notícias logo serão descartadas.

No entanto, me parece estranho que as pessoas realmente se espantem com os números de mortos divulgados pelo governo chinês (mais de 60 mil, de acordo com as últimas informações que eu consegui segurar), uma vez que o país é considerado como o com a maior população do mundo e qualquer coisa que acontecesse acabaria matando muita gente mesmo.

Além do mais, as alterações do meio ambiente como conseqüência da superexploração do planeta já se tornaram lugar-comum; abandonaram a ficção científica com direção certeira e atroz. O fim dessa história é bastante conhecido, na verdade bem mais do que deveria ser.

Eu sei que parece insensibilidade falar das coisas assim, mas os fatos tão aí pra quem quer enxergar, e receio que Malthus encontrou um consolo a que se agarrar: o bem maior.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Entreouvido por aí!

- Amor, tô de dieta; a partir de hoje, pode me servir no prato de sobremesa.

- A minha é de chocolate!

Família conversando na mesa do almoço.

Heresia

Vou admitir: eu tenho sim preconceito com novelas. Não assisto a algumas por pura birra, e entendo essa geração de pseudo-intelectuais que não vê Fantástico, BBB e Vídeo Show. Ou que diz que não faz nenhuma dessas três coisas.

O problema é que ando traindo o movimento e vim aqui admitir a minha culpa: eu vejo Duas Caras! Poderia dizer que assisto por questões de estudos antropológicos (o que é uma mentira descarada) e desistir desse texto. Mas o caso é sério; eu não só vejo a novela como, em pleno ano de vestibular, mato cursinho para seguir a trama que tá acabando e me deixando cada vez mais nervosa.

Na verdade, eu tenho dificuldades em saber/compreender a que meios (ilícitos, imagino) meus companheiros de pose recorrem para conseguir permanecer com princípios infames inalterados e não gostar dessa novela. Definitivamente não entra na minha cabeça, embora eu também quisesse ter essa força de vontade (ou pedantismo, whatever). Só que esse vício tá começando a prejudicar a minha vida. Explico: plena sexta-feira, todos juntos num restaurante comendo pizza, derramando Coca-Cola e conversando, e eu lá, olhando fixa e tensamente pra tevê. Se ninguém reparasse a minha ausência não teria o menor problema. Só que eu faço questão de, a cada término do assunto (ou início de propaganda, entendam como quiserem), perguntar com a maior cara-lavada “O quê?”. Resultado: fico com fama de uma pessoa ligeiramente devagar, e isso enfraquece a amizade.

Entretanto, imagino que eu não seja a única a passar por esse tipo de problema, uma vez que, de acordo com o PNT (Painel Nacional de Televisão) do mês de Abril, Duas Caras foi o programa mais assistido no país, ganhando até do Jornal Nacional, além de ter sido campeã de audiência entre todas as faixas etárias, classes sociais e sexos. Provavelmente entre todos os tipos de pseudo-intelectuais (ênfase no “pseudo”, no meu caso) também.

Diante dessa situação caótica, não tive outra escolha a não ser recorrer aos santos; um dos desejos que fiz na minha última fitinha do Senhor do Bonfim foi que essa vontade LOUCA passasse, e eu voltasse a seguir à risca nossos princípios infames. Para minha (in)felicidade, a fitinha não arrebentou.