quarta-feira, 30 de março de 2011
No meio do caminho tinha uma pedra
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Hereditariedades. Ou a falta delas.
Pouco ou quase nada conheço de carros. Isso inclui marcas, tipos e acessórios. Nunca me interessei, nem quando via aquele êxtase estampado na cara do meu pai quando um carrão não-sei-quantas-cilindradas passava voando perto da gente. Acho que isso o frustrou um pouco. Quer dizer, não exatamente isso. Mas o meu desprendimento em relação às motos (sua maior paixão) é que realmente o fez desejar ter um filho másculo e explorador de habilidades radicais, as quais eu jamais fiz questão de possuir.
Sei que esse papo todo pode parecer meio sem sentido. Mas é que a morte do Michael Jackson me levou a pensar na morte de tantas outras pessoas, e eu acabei me lembrando do Ayrton Senna. Nunca vi meu pai chorar tanto. Nunca me esqueci o modo como ele deitou na cama, com uma total incredulidade. Ninguém na casa podia dar um pio. Era contra lei dele, naquele momento específico. Mas eu, com 4 anos, não entendia nada de leis. Também não conseguia admitir que meu pai tava na minha frente chorando como um grande bebezão. Ele, que sempre me disse que homens não choram.
Cresci, e graças a deus o destino fez o favor de livrar a minha cara dando um barãozinho a ele. Eu quis morrer de ciúmes, quase enlouqueci. Fazia planos duma fuga que nunca se concretizava. E meu irmão era tão pequeno! Um dos únicos bebês bonitos que já vi na minha vida, uns olhos de jabuticaba madura, cílios excepcionalmente longos, cabelos que de tão finos espetavam a mão quando se fazia carinho. Claro, eu nunca tinha experimentado fazer. Foi coisa que eu ouvi atrás da porta, sorrateiramente, esperando uma comparação que nunca vinha.
Ele cresceu, meu pai também. A ele, foi passado esse carinho por carros, motos, bicicletas e qualquer coisa que tenha a mais remota conotação de perigo. A mim, foram reservados os livros, e não tenho vergonha nenhuma de dizer que isso só aumentou o meu distanciamento com meu pai.
Já cheguei a me culpar por não ser o que ele esperava que eu fosse. Mas hoje, não. Hoje rio quando tenho que gritar um ‘putaquepariu’ pra algum imbecil exibicionista que esqueceu de ligar a seta, pensando que em algum lugar dessa cidade meu pai deve estar fazendo a mesma coisa.
sábado, 20 de junho de 2009
Sorriso do corpo.
Não há amizade sem ritmo. Tem que haver um mínimo, uma sombra, um resquício de um ritmo há muito perdido. Mesmo que ele só se mostre na hora da fala, do riso ou, por outra, nas palmas cheias de desejos nos parabéns. Da mesma forma, não pode haver felicidade sem ele. Chamam-me louca; resmungo um pouco, quero contestar. Mas, como não mudam de idéia (ops!) e nem eu, prefiro continuar a ser assim; não posso, não consigo me relacionar com quem não tem nem o mais ínfimo ritmo. É contra minha religião, meu signo, meu instinto.
Não que eu sambe bem, não é isso. Também não faço parte de nenhuma companhia de dança, nem sequer fui assistir aos espetáculos da Deborah Colker. Jamais fiz qualquer aula. Minto; fiz jazz ainda menina. Não sei dançar tango, forró ou frevo. Arrisco no funk, no bate-cabelo. Mas não é disso que falo, não pretendo ser uma hitler do rebolado africano. É que há em mim uma compreensão meio folclórica, meio pagã, que talvez não esteja nem certa nem errada, sobre os movimentos rítmicos, a interação dos braços, pernas, quadris, cintura; o ‘sorriso do corpo’ me atrai.
Uma vez li que, para se aprender a felicidade, bastava ver uma preta sambando. A maioria das pessoas acharia isso apenas lírico. Não que não seja; é. Mas houve, entre mim e a pessoa que o disse, uma compreensão mútua, um momento de êxtase, de puro êxtase, diante dessa verdade inapelável. Em milésimos de segundo saboreamos o Nirvana, com um sorriso frouxo estampado na cara e uma idéia (ops, de novo!) vaga e fosforescente na memória.
Os idiotas da objetividade dirão, taxativamente: b e s t e i r a. Amizade é muito mais que isso. É? Pois pra mim não há forma mais sublime de amizade que aquela de mesa de bar, dum sambinha vadio e batucado, das conversas cheias de mentiras (não há boa conversa sem uma dose de mentiras!) dos amigos descompromissados, do rebolado de mansinho, com os pés no chão. Os que não têm ritmo, no meio disso tudo, permanecem sentados, um copo de chopp na mesa, nem cheio nem vazio. Na mão não pode ficar; a falta de coerência entre os movimentos pode passar a perna e, num piscar de olhos, a cerveja vai pro chão. Também não aplaudem ao fim da música: o som das palmas desparelhadas agride os ouvidos alheios. Falar não podem, pois o som das suas vozes bruxuleia instável e, mais uma vez, agride os ouvidos. Melhor que fiquem sentados, imóveis e tristes. E que o chopp não lhes dêem (ops?) coragem pra falar, mover, cantar e SAMBAR, gargalhando, se achando os mais transgressores dos mortais. Reduzo-me à grosseria.
Chamem-me como quiserem; racista, preconceituosa, o escambau. Pensem o diabo de mim. Mas digo, e repito; não há amizade sem ritmo.
terça-feira, 10 de março de 2009
Away from here.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Carta ao menino azul-pelado*
Os anos de Criar foram uns dos melhores da minha vida. Lembro-me com um saudosismo sentimentalista das cores vibrantes desse arco-íris, que por tanto tempo tingiram a minha história, e moldaram o meu caráter e a minha poesia.
A escola era a extensão do meu quintal. Os professores, meus tios e tias mais queridos e presentes. Sangues do meu sangue. Que me fizeram compreender que às vezes uma banalidade pode ser o motivo de uma lágrima ou de um sorriso; que um abraço num momento esquisito pode significar além do imaginado e pretendido.
Lá, me fizeram acreditar na canção que dizia que é preciso amar, embora isso soe clichê. Me fizeram entender que o clichê, muitas vezes, é a diferença entre o que importa e o que não faz o menor sentido. Aprendi a correr quando não há escapatória, a resolver problemas com a desenvoltura descompromissada de uma criança.
Muito mais do que formular pré-fabricadas, foi no Criar onde aprendi a enxergar que a vida vai além de um soneto decassílabo de rimas intercaladas; que, na verdade, a vida é apenas um punhado de lembranças coloridas que nos fazem chorar num domingo chuvoso recheado de memórias, como este.
*Menino azul-pelado é referente à antiga logo do Criar.
sábado, 30 de agosto de 2008
Toda-poderosa
Há certas regras imprescindíveis para a felicidade das sociedades around the world que Deus nem pensou em criar e que, portanto, o homem deveria faze-lo. E se o homem nem Deus quisessem, que eu fizesse uma ditadura divina e as implantasse. Lógico, pelo bem da humanidade, já que essa não sabe(ria) decidir por si só.
A primeira delas seria o comunismo. Não o comunismo político/econômico/social, como muitos já pensaram e tentaram fazer; mas um comunismo totalmente revolucionário e inédito (ou não): o da beleza feminina. Todas as mulheres deveriam seguir um padrão de beleza; não haveria nem uma lindíssima e nem uma feíssima, e a normalidade seria determinada pela primeira mulher existente. Então, nada mais óbvio do que sermos todas horrorosas, se lembrarmos que a primeira não era algo muito diferente de um macaco. Mas, como seria padrão, os homens se acostumariam e nós também, além de sermos todas taxadas de bonitas, uma vez que os nossos olhos se acostumassem e fossem vencidos pelo cansaço e pelo conformismo. A diferenciação, nesse caso, seria totalmente ligada à personalidade; quem gostasse mais de cabelos curtos, usaria, quem preferisse roupas pretas, quem raspasse mais os pêlos pelo corpo, quem furasse a orelha, quem fizesse uma tatuagem ou piercing, etc etc etc.
A segunda seria a inviabilidade de acordar cedo em dias chuvosos e cinzas. Não aqueles sol-e-chuva-casamento-de-viúva, mas aqueles outros (como esse) que fazem seu cérebro traduzir, através da luz que entra pelas frestas da janela, que são 5h da manhã, embora já sejam 9h. E, para que isso acontecesse, em cada cidade deveria haver uma central clima/tempo superluperhiperliper avançada tecnologicamente, que preveria com cinco dias de antecedência tais dias. Assim, os comércios, as escolas, enfim, tudo, poderia se programar como se programa um feriado; horário de levantar: meio dia.
Outras, embora não menos importantes, seriam pequenas leis contra a lei de Murphy, e é aí que entra uma antiga propaganda (genial, por sinal) de alguma operadora telefônica: Biscoitos e pães não cairiam com a parte da manteiga virada pra baixo, estrias só dariam nas paredes, os carros diminuiriam de acordo com o tamanho das vagas que ainda sobrassem nas ruas; existiria uma bebida que deixaria todo mundo muito louco, e com gostinho de Coca-Cola (e SÓ de Coca-Cola, sem aquele fundinho de álcool) variando nos sabores lemon, light, zero e normal; a dona do Sex Shop mais perto não conheceria sua mãe, tampouco as vendedoras. Também não conheceriam a sua mãe o carinha da farmácia onde você costuma comprar a camisinha mais barata, nem o professor que te reprovou no semestre passado. Toda casa deveria ter um quartinho dos fundos em que não desse pra ver, pelo lado de fora, o que estava acontecendo lá dentro, mas que lá dentro pudessem ver o que se passava pelo lado de fora. As roupas não rasgariam ou manchariam; vestibular seria, somente, um nome vulgar para um chapéu seletor, que te mandaria instantaneamente para o curso e a faculdade em que você melhor se desenvolveria.
Os críticos talvez reclamassem em uníssono; multidões insurgiriam, iradas, promovendo passeatas e distribuindo panfletos impiedosamente, contra a minha tão perfeita ditadura. E, a mim, já maltrapilha, restaria apenas um consolo; la unanimidad eres burra!
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Radiohead.
Não tenho exatamente a certeza de que parece o contrário, mas eu me esforço bastante pra entender um bocado de política – mesmo que no final das contas eu acabe não entendendo nada. Embora não tenha votado nunca, e também não tenha sentido a necessidade de pesquisar sobre a vida de nenhum candidato e nem o que ele fez nalgum outro mandato, tenham sido coisas boas ou ruins, eu me sinto no direito de criticar e discutir com os amigos sobre qualquer tema que surja. É bom ressaltar que acabo sempre perdendo a discussão, caso haja alguma. Ora, ninguém é perfeito.
Óbvio que tenho algumas convicções que, inclusive, outros poderiam explicar melhor. Desgosto menos das coisas do que gosto; agrido mais do que defendo. E, no geral, isso serve como filosofia de vida. Uma coisa meio Diogo Mainardi; reclamar mesmo que não tenha motivo. E algumas vezes até tem, aí ganho alguma credibilidade. Ou não, vai saber.
O fato é que esse ano chegou a minha vez: sou obrigada a votar. O-B-R-I-G-A-D-A. E eu detesto fazer as coisas por obrigação. Faço de má vontade, na maioria das vezes. E acredito que a maior parte da população faça exatamente a mesma coisa, ou porque não vê sentido nisso – votar – ou simplesmente porque acha que, como já ta tudo cagado mesmo, não vai fazer diferença votar em qualquer político que pague pra isso. E político que paga é o que mais tem por aí.
Mas o que mais me irrita, além de tudo, é ser obrigada a escutar aquelas musiquinhas, que desfilam pelas ruas da cidade em carros que andam em velocidade de vovô: vinte quilômetros por hora. São sempre músicas que grudam na cabeça de uma forma tal, que nos fazem sonhar com o diabo da coisa. Que entram em ondas sonoras malcriadas pelas nossas janelas e portas, invadindo nossas casas e nossas cabeças pelo resto do dia. E se estendem durante todos os dias da semana, dos meses, até que finalmente, param. Embora só parem declaradamente ao público, porque durante muito tempo aquilo ainda ecoa na sua cabeça, numa freqüência menor, e cada vez mais baixo.
Pelo menos elas servem pra me auxiliar na hora de votar e, mesmo agora, já sei o critério que eu vou usar pra escolher alguém: aquele que menos me encher o saco, leva.
domingo, 20 de julho de 2008
Dez maneiras de fazer seu blogue bombar.
1- Colocar o aviso de conteúdo adulto no começo.
2- Ser professor.
3- Falar de sexo e coisas da vida pessoal, relativas a sexo.
4- Entrar em comunidades e participar de fóruns Divulgue Aqui.
5- Ter mais imagens do que textos.
6- Errar no português.
7- Mandar todos os dias o link pra sua lista do orkut e do MSN.
8- Bajular o blogue do amigo com o intuito de ser adicionado aos favoritos dele.
9- Virar garota de programa.
10- Ser professor, gay.
Perceberam o empirismo? Nem eu.
Muita coisa na cachola.
Freqüento os blogues dos meus amigos assiduamente, e geralmente tenho muita coisa pra ler. Por que diabos ninguém escreve em julho? *
A camisa do Anima Mundi tava cara demais. Minhas impressões gerais do ano retrasado foram melhores, e isso também diz respeito aos curtas. O prédio do CCBB é o que faz valer mais a pena, desculpem. *
Minha mãe ta fazendo curso de braile. Quando perguntada sobre o motivo, emudeceu. *
Marioleiro é que é profissão; de um único carro fatura cinco conto, em três segundos. Estudo não leva ninguém a lugar nenhum. *
sábado, 12 de julho de 2008
A lenda do.
Estava havia muito sem alugar filmes. Não sem ver nenhum, embora os que eu andava vendo não eram exatamente o que eu escolheria ver, se tivesse oportunidade. Mas o que mais me irritava era ver meus amigos no mesmo ritmo de antes, alugando toneladas e discutindo sobre elas –enquanto eu olhava distraidamente pra cara da Claudia Raia que depois de anos e anos de televisão ainda não aprendeu a ser uma boa atriz. Enfim, cansei. E a gota d’água veio exatamente no momento em que passei na rua de carro e vi uma dessas minhas amigas do ritmo cinematográfico alucinante com um saco gigante de filmes na mão. Enciumei-me e fui muito irritada à locadora. Aluguei tudo o que o dinheiro e o tempo permitiram, e voltei a ficar bastante feliz e posuda.
Chegando em casa, vi que todos tinham decidido fazer a mesma coisa que eu: enriquecer as locadoras municipais. Tanto melhor! Além dos filmes que eu escolhi, ainda ia poder ver os que minha mãe, meu pai e meu irmão alugaram, embora isso não tenha acontecido de fato.
À tarde de terça-feira (eu os aluguei no sábado e tinha que entrega-los na quarta), todos os meus filmes haviam-se esgotado. Restavam os da família. Dei uma olhadela; acabei optando por um da Disney, cujo anterior havia passado há poucos dias na Globo, e a história ainda estava fresca na minha cabeça: A Lenda do Tesouro Perdido.
O filme, provavelmente proveniente dessa onda códigodaviceniana a que estamos passando (e isso não é um crítica, nem positiva nem negativa), conta a história de um homem que descobriu que um de seus antepassados havia ajudado a abafar uma conspiração contra o presidente Lincoln, depois da Guerra de Secessão, queimando um diagrama codificado. Tal diagrama mostrava onde estaria localizada uma cidade ameríndia feita quase totalmente de ouro, e era procurada pelos conspiradores. Na verdade, a trama começa quando outro homem interpreta os fatos de outra maneira, fazendo com que de mocinho, o tal antepassado do protagonista, passasse a ser bandido e, no caso, conspirador, que inclusive havia ajudado a matar o então presidente, Lincoln. Essa acusação faz com que o protagonista comece a buscar pistas de onde estaria localizada a cidade do ouro e salvar a sua reputação familiar, que a essa altura já estava bastante abalada.
Misturando história e suspense, foi até legal assisti-lo numa tarde de terça-feira. E, sinceramente, foi também instigante. Mas o que, de verdade, chamou a minha atenção, foi uma frase dita por um fulano, quando eles decidiram invadir a sala do presidente com o intuito de investigar a mesa a qual ele sentava. “Mas lá é onde sentam os homens mais inteligentes do país!” Essa frase realmente mexeu comigo e me fez pensar na nossa realidade política, e talvez até invejar os EUA.
Que os Bush foram uns dois grandes merdas, vá lá, mas ninguém pode negar que eles foram ao menos inteligentes pra fazer suas porcarias. Eu nunca os ouvi dizendo que não sabiam de alguma coisa que grupos de pessoas roubavam absurdas quantias do dinheiro público só pra livrar a sua imagem. Eu nunca vi o povo americano, frente a uma roubalheira política, baixar a cabeça e dizer “sempre foi assim, por que hão de mudar agora?”, e continuar votando insistentemente no mesmo candidato.
Os anti-americanos que me perdoem, mas merdas mesmo somos nós.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Breve e saudoso desabafo.
É estranho reencontrar pessoas que fizeram parte insistentemente do nosso passado. Principalmente quando esse passado faz tempo, e delas só fofocas chegam a você. Aí vem aquele saudosismo, aquele sentimentalismo grudento de "lembra daquela vez...". E no final tem sempre aquela promessa de vidas futuramente entrelaçadas.
Algumas pessoas (eu, por exemplo) ficam com aquela promessa na cabeça, como se as coisas fossem voltar a ser do jeitinho que eram quando o passado era presente; e esperam, esperam... Cansando. Ou às vezes não, o que é ainda pior e intensifica mais esse sentimento de estar velho e decrépito, de não ter cumprido o que dizia que era impossível não cumprir, de estar diferente. E amar mais do que era necessário, reviver mais tempo que os outros, relembrar mais milcoisas minuciosamente, e desejá-las é o maior perigo. Frustração.
Deveria ser mais fácil se separar das pessoas, feito ordem divina que cai do Céu num pedaço de madeira fluorescente. Todos nós respeitaríamos sem contestar e não acabaríamos por nos magoar quando a validade das relações acaba e as pessoas, que antes se entendiam tão somente com o olhar, vão tocando as suas vidinhas sem se esbarrar.
Também não deveria doer. Quer dizer, embora eu ache que não seria nada legal uma amizade não fazer falta a uma pessoa, seria mais fácil na hora de se separarem. O problema é que todo o mundo quer achar que faz falta pra alguém, involuntariamente. E todo mundo quer que os outros façam falta pra si mesmo, só que na verdade fazem, e isso torna a sensação ainda mais agressiva e irrimediavelmente triste, durante um bom bocado de tempo. Frustração!
sábado, 31 de maio de 2008
Futebolística.
Não sei porque, mas detesto futebol. Na verdade até sei, embora tenha feito mil esforços pra pensar no contrário. Aluguei filme, assisti a jogos, tentei conversar; descobri que a única coisa que eu tolero é jogo do Brasil, e mesmo assim, sou a única que grita quando o time contra faz um gol (não é má vontade, tem vezes que eu simplesmente não consigo diferenciar).
No entanto, eu ainda carrego umas heranças, pequenas e preconceituosas, é verdade, do meu pai. Apesar de tentar, não consigo me livrar de achar que o Flamengo é legal, e Fluminense também. Vasco é horrível e Botafogo é o pior time que há. Anti-flamenguista é invejoso. Anti-vascaíno é sensato. São Vicente não é nada mal, Corinthians é péssimo; Bostafogo é, definitivamente, o pior time que há.
Mas eu tenho que admitir que a camisa do Flamengo não é bonita. Esse negócio de rubro-negro não fica bem, listrado. Grená, branco e verde é uma mistura ousada, e fica até bem bonito. Mas nenhuma se compara à do Botafogo; ô camisinha pra ta na moda!
Eu acho que é por isso que tem tanto torcedor botafoguense: listra em preto-e-branco é uma febre. Basta andar meia hora na rua que você vai entender o porquê; mulheres, senhoras e meninas, todas elas usando blusa, calça ou calcinha listradas, umas com listras mais grossas, outras menos. Mas é sempre listra meio fotografia velha, em p&b.
Acho que isso explica essa nova onda de garotas histéricas e fanáticas pelo Bostafogo; se é pra escolher um time, que seja um time fashion. Pena que essa moda esportiva com números estampados seja lá dos meus idos onze anos...
terça-feira, 20 de maio de 2008
Bem-maior
Malthus provavelmente se está revirando no túmulo, sorrindo; os olhos putrefeitos voltados pra China, de onde o caos, friamente calculado como bom pra humanidade, emerge de placas tectônicas profundas.
Os jornais vomitam informações, as quais não preciso informar aqui, acredito. É sabido que os terremotos andam gerando uma grande baixa na população mundial. Naturalmente, a sociedade, chocada, se preocupa com o fim dos que lá vivem (ou morrem), com razão, embora essa realidade esteja tão longe de nós aqui e essas notícias logo serão descartadas.
No entanto, me parece estranho que as pessoas realmente se espantem com os números de mortos divulgados pelo governo chinês (mais de 60 mil, de acordo com as últimas informações que eu consegui segurar), uma vez que o país é considerado como o com a maior população do mundo e qualquer coisa que acontecesse acabaria matando muita gente mesmo.
Além do mais, as alterações do meio ambiente como conseqüência da superexploração do planeta já se tornaram lugar-comum; abandonaram a ficção científica com direção certeira e atroz. O fim dessa história é bastante conhecido, na verdade bem mais do que deveria ser.
Eu sei que parece insensibilidade falar das coisas assim, mas os fatos tão aí pra quem quer enxergar, e receio que Malthus encontrou um consolo a que se agarrar: o bem maior.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Entreouvido por aí!
- Amor, tô de dieta; a partir de hoje, pode me servir no prato de sobremesa.
- A minha é de chocolate!
Família conversando na mesa do almoço.
Heresia
Vou admitir: eu tenho sim preconceito com novelas. Não assisto a algumas por pura birra, e entendo essa geração de pseudo-intelectuais que não vê Fantástico, BBB e Vídeo Show. Ou que diz que não faz nenhuma dessas três coisas.
O problema é que ando traindo o movimento e vim aqui admitir a minha culpa: eu vejo Duas Caras! Poderia dizer que assisto por questões de estudos antropológicos (o que é uma mentira descarada) e desistir desse texto. Mas o caso é sério; eu não só vejo a novela como, em pleno ano de vestibular, mato cursinho para seguir a trama que tá acabando e me deixando cada vez mais nervosa.
Na verdade, eu tenho dificuldades em saber/compreender a que meios (ilícitos, imagino) meus companheiros de pose recorrem para conseguir permanecer com princípios infames inalterados e não gostar dessa novela. Definitivamente não entra na minha cabeça, embora eu também quisesse ter essa força de vontade (ou pedantismo, whatever). Só que esse vício tá começando a prejudicar a minha vida. Explico: plena sexta-feira, todos juntos num restaurante comendo pizza, derramando Coca-Cola e conversando, e eu lá, olhando fixa e tensamente pra tevê. Se ninguém reparasse a minha ausência não teria o menor problema. Só que eu faço questão de, a cada término do assunto (ou início de propaganda, entendam como quiserem), perguntar com a maior cara-lavada “O quê?”. Resultado: fico com fama de uma pessoa ligeiramente devagar, e isso enfraquece a amizade.
Entretanto, imagino que eu não seja a única a passar por esse tipo de problema, uma vez que, de acordo com o PNT (Painel Nacional de Televisão) do mês de Abril, Duas Caras foi o programa mais assistido no país, ganhando até do Jornal Nacional, além de ter sido campeã de audiência entre todas as faixas etárias, classes sociais e sexos. Provavelmente entre todos os tipos de pseudo-intelectuais (ênfase no “pseudo”, no meu caso) também.
Diante dessa situação caótica, não tive outra escolha a não ser recorrer aos santos; um dos desejos que fiz na minha última fitinha do Senhor do Bonfim foi que essa vontade LOUCA passasse, e eu voltasse a seguir à risca nossos princípios infames. Para minha (in)felicidade, a fitinha não arrebentou.
sábado, 26 de abril de 2008
Comunicado:
Jabor e a tara.
Nunca conheci um cara que escrevesse tantos sinônimos para as palavras canalha e ladrão, como o Arnaldo Jabor. É fato que eu não o li muito, porém o é também que não se precisa fazer isso pra descobrir esse profundo tesão que ele tem por pulhas, vigaristas, tartufos, songasmongas, embusteiros, calhordas, trampistas, negadores, defraudadores, pichelingues, unhantes, ratoneiros, gatunos, trabuqueiros, ladravazes, e outros tantos.
Não preciso nem dizer que para lê-lo, é necessário um dicionário ao lado, uma vez que nem mesmo o Windows reconhece tamanha quantidade de palavras. Eu mesma nem as terminei de pesquisar, visto que o mini-dicionário que me emprestaram também não dispunha de tais definições para dessedentar as minhas (muitas) perguntas. Resultado: insônia!
É incrível como, em meio à boçalidade geral da nação brasileira, conseguem surgir criaturas capazes de transformar a realidade conspurcada em que vivemos numa literatura tão sutil e ao mesmo tempo tão virulenta. Pois é isso que esse camarada faz; usurpa o nosso cotidiano político e pessoal e o transmuta a uma beleza óbvia que ulula, ainda que muda, diante de nosso olhos pueris.
Sempre tive uma queda pelo Jabor. Quando o via no jornal, criticando com tanta irreverência as nossas cagadas políticas, fazendo aqueles mil gestos sempre tão parecidos, defendendo com tanto afinco os filmes do Glauber, achava-o sensacional. Até o meu avô dizia que, só se eu fosse assim, valeria a pena escolher a profissão que eu escolhi. É claro que às vezes eu ficava com raiva, tamanha era lista de reclamações que ele tinha. Mas aí eu pensava e ouvia, concordando ou não, ele tava certo em reclamar, e eu que tava errada em dizer que ele era chato por faze-lo. Pudera, eu não vivia em sessenta e oito; faço parte da geração acomodada, da “macarena”, Spice Girls e É O Tchan!.
Que já tem até criancinha pedindo pra ser Chico Buarque não é novidade pra ninguém; mas eu to começando a acreditar que, mesmo sem o charme galante de um dos maiores compositores da música brasileira, Arnaldo Jabor é, sem dúvidas, um inventor de moda em potencial.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Thayrine!
Já perdi tardes inteiras tentando entender por que meus pais me deram esse nome. Eu sei que, pra vocês, pode parecer falta de ocupação (e não deixa de ser). Mas isso é uma questão filosófica acerca de minha própria identidade, então, eu tenho mais é que desperdiçar meu tempo mermo!
Sempre páro no mesmo ponto: ou eles quiseram revolucionar a língua portuguesa, numa miscigenação de radicais que formam uma palavra um tanto quanto estranha, e assim, chocar a sociedade; ou foi porque eles não tinham nada na cabeça mesmo. Eu acredito na segunda opção, apesar de, pra me fazer sentir mais confortável comigo mesma, me inclinar mais à primeira.
Meus pais se mostraram dois tremendos egoístas! Será que eles realmente não pensaram que eu já teria problemas suficientes com o “Kleinsorgen” do sobrenome? Nem que eu ia passar metade da vida escrevendo “Cruz” com ésse, porque me preocupava demais com o “Thayrine”? Será que eles não pensaram que eu teria dificuldades de relacionamento por ter passado toda a infância sendo caçoada? Será que eles não pensaram nas horas intermináveis que eu ia ter que perder pra soletrar meu nome pra alguém escrever? Ou mesmo pronunciar? Será que eles não pensaram na chamada, quando os professores demorariam pra me chamar porque: a) demorariam pra conseguir juntar as sílabas e b) depois de conseguir juntá-las, demorariam pra acertar a pronúncia? Será que eles não pensaram que eu seria a última da chamada, uma vez que o número de pessoas cujo nome começa com as letras U ou V ou X ou Z é muito pequeno e que, por isso, eu ia levar inúmeras faltas sem conseguir prestar atenção até chegar a minha vez? Será que eles não pensaram que quase todos os meus documentos viriam grafados de uma maneira estranha ou porque a pessoa pra quem eu soletrei perdeu alguma parte ou quis zoar com a minha cara? Será que eles não pensaram que no futuro criariam um programa cuja atração principal seria um bloco de soletração, e a palavra com maior grau de dificuldade seria justamente o “Thayrine”? Será que eles não pensaram que eu posso ser passada pra trás na hora de achar um emprego porque um “Amanda” é muito simples? Será que eles não pensaram que no dia do meu casamento o padre ainda vai gaguejar, mesmo tendo ensaiado durante toda a semana? Será que eles não pensaram que, quando eu me apresentasse, as pessoas diriam “Bonito nome” com um sorrisinho babaca estampado na cara? Será que eles não pensaram que meus filhos inventariam um nome qualquer pra mim para não ganharem um achaco de herança? Será que eles não pensaram que se eu falasse “Thayrines do mundo, uni-vos!” eu não ia conseguir fazer nenhuma revolução? Pior: será que eles não pensaram que eu ia detestar esse nome?
É, eu acho que eles não pensaram.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
1974
A primeira coisa que me perguntaram ao final do filme foi: “Thayrine, com quem você anda saindo, hein?” Minha resposta foi um leve enrubescimento. Não aceitaram a justificativa verdadeira de que eu li a crítica – positiva - no O Globo. Insistiram na pergunta, ao passo em que outros retrucaram: “Não duvido de nada, depois que a Globo bancou aquela minissérie de merda, Caros Amigos!” Continuei calada, preocupada em escurecer o tom de vermelho da minha pele, amarelar o sorriso amarelo; maldito bonequinho.
O filme em questão chama-se 1974 e é milnovecentosesetentaequatrovezes chato! A história se passa no Brasil, no início do governo de Geisel. Uma rica jovem aspirante a jornalista e um músico pobre e roqueirinho acabam se esbarrando em meio a um confronto entre policiais e adolescentes. Rola aquele clima de filminho água-com-açúcar, e eles se separam. O músico se apaixona logo naquele primeiro encontro, e o resto do filme eles passam por aquelas confusões mal-resolvidas dos casais de Malhação.
A proposta do filme é linda, um ângulo “novo” para uma época que me comove e que faria do filme um forte candidato a um dos meus preferidos (não que isso valha de alguma coisa). As mudanças seriam várias, e começariam pelas falas, que são essas mesmas que a gente vê na novela das seis, superprevisíveis. Tanto, que ao longo do filme eu conseguia até escutar os espectadores completando a frase antes de os personagens o fazerem, naquele silêncio que (era pra) dar suspense. E não ficou bonito, como naqueles filmes antigos de Hollywood. Os atores também não foram nada bem; feições plásticas, entonação péssima, gesticulação idem. O que salvou foi o visual, e ponto.

